Que dizer da pintura de quem nos está tão perto, tão perto que está cá dentro?
Que dizer dos quadros de quem fala a pintar?
Que dizer do que não se traduz porque se sente?
Mas, talvez não fosse necessário conhecer há tanto quem dá vida às cores, para perceber que a autora e as telas se confundem, que pegar em pincéis e sujar as mãos de tinta é para ela como respirar... Bastará, tão somente, olhar para a pintora através dessas imagens que são dela, dessas imagens que são ela.
Quando uma tela fala e respira, se revela num despudor, hesitando entre o exibir e o esconder, o desejo é ficar. Ficar e descobrir, desvendar a linguagem de mil palavras e sem som que as manchas e as formas sugerem existir sem totalmente revelar.
O apelo das técnicas, a exploração constante, a descoberta, o vigor incontido.
A indiferença é difícil, quase impensável. As imagens estão lá e inquietam, acutilam, despertam os sentidos e impõem-se sem contudo cansar. A leitura não se esgota, pois as telas apetecem ao olhar e ao tacto, quase, quase, ao paladar.
O quente e o frio, o doce do sal, a distância tão próxima, o ausente presente, o rugoso do seixo, o macio do chão. O sabor a terra, o grito da lua, os raios da noite, o escuro do sol. São ritos, são passos, memórias e traços. Por detrás o cenário, pela frente a fachada. As cores, os cheiros, o que passa o que ficou. Formas que evoluem, engangam, que se dissimulam e estranham. O real é o que existe, ou talvez não?
Texturas e mais gestos, o que está longe, o que está perto.
A origem. O preenchido vazio. A força do que é frágil. Imagens, imagens, contornos e impressões.
O pulsar, a vida, nem só conceito, nem só confissão.
O Eu diluído a escorrer dos pincéis, liberto na tela, gozo infinito, sensorial, de pintar (ou pensar?) momentos e emoções.
Aline Catambas
Fevereiro 2000